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“As flores de plástico não morrem”
… mas as flores vivas tem o encanto dos aromas inebriantes, das cores que hipnotizam, das texturas e formas que se transformam e se renovam pelo instinto da natureza de querer se continuar pra sempre.

Conheci Marijuana num carnaval em Punta Del Diablo, uns anos atrás. Meus amigos, que também não tinham experiencia à respeito, comeram vários bolinhos mágicos e não estavam sentindo nada de diferente. Comi logo as duas trufas canábicas de uma vez. Fomos caminhar pela praia. Eles logo voltaram pro hostel. Era quase pôr-do-sol do último dia da viagem. Segui caminhando pela orla da Playa Grande. E fui longe, mais longe do que costumava ir, sei lá quantos quilômetros.
Uma névoa bonita de maresia deixava a paisagem como que em camadas de transparência sobre um fundo de luz. Nada do efeito das trufas.. Dei meia volta. Tinha um bom tempo de caminhada pela frente. Comecei a reparar como as pessoas daquela praia eram bonitas. Gente alegre e leve de corpo bom, sabe?.. Por que eu não tinha ido pra lá antes? Então o horizonte começou a se inclinar, ficando levemente diagonal. Eu, estranhando, inclinei a cabeça pra tentar compensar esse desnível inusitado. Com certeza era um efeito da refração da luz do sol poente devido à densidade do ar que aumentava gradativamente com a umidade conforme se aproximava do mar… Ops, são as trufas! E eu, no meio daquela praia imensa e desconhecida, ri. Meu cérebro começou a fazer umas associações bizarras e eu entendi muitas coisas. Minha mente voava e eu só torcia pra lembrar desses pensamentos depois. Cheguei às dunas e vi aquele paredão de areia fofa marcado pelos passos das pessoas que já tinham passado por ali naquele dia. O sol pintava as luzes de dourado e deixava as sombras azuis. Aquilo era impressionismo vivo! Era lindo e brilhava. Então, de súbito, eu quis sair dali, porque sabia que ia escurecer logo e tive medo. Ao longo do caminho de pedras e vegetação rasteira, alternava entre o êxtase e o pânico. Entendi a importância do feminismo. Eu queria me sentir bem e livre ali, mas o fato de eu saber que era uma mulher sozinha de biquini no ultimo dia de carnaval em uma sociedade regada a álcool me limitava. Entendi também a importância da regulamentação do consumo de entorpecentes. Claramente a dose tinha sido maior do que eu teria escolhido se tivesse informação. A noite foi estranha e conturbada, mas passou.
Acordei em paz. O sol ainda estava pra nascer e eu resolvi receber ele de dentro do mar. Fui além da arrebentação. As ondas erguiam meu corpo tirando de leve os meus pés da areia. Era um balé de água, luz e sal. Os raios do sol começaram a beijar a superfície da água e eu sentia esse brilho todo entrando pelos meus olhos que agora podiam ver mais beleza do que antes. O mar encarinhava minha pele que vibrava. O vento, as ondas e os pássaros eram música pura. Era como se o próprio brilho do sol na água cantasse também. Saí do mar com um riso leve, dizendo que eu estava pronta pra qualquer coisa que a vida me oferecesse.
Marijuana é minha amiga dês de então. Às vezes a gente fica um bom tempo sem se cruzar, às vezes tem uns convívios intensivos e entendi que esse equilíbrio me faz bem. Compartilho essa experiencia porque defendo a ideia de que a liberdade plena só pode existir quando existe consciência, e a consciência só se desenvolve à partir do conhecimento e da experiência de cada um. A maconha tem efeitos terapêuticos e medicinais comprovados por zilhões de estudos e já fez parte da maletinha dos médicos antes de ser marginalizada. Apesar da realidade atual do ambiente em que eu vivo, acredito nas mudanças. Acredito que a gente ainda vai ter a liberdade de escolher quando vai tomar um cafezinho ou uma champanhe, comer um brigadeiro ou um cogumelo mágico, cultivar suculentas, samambaias ou flores terapêuticas. Que cada um sinta a liberdade de experimentar o que tiver vontade e a consciência de ouvir e respeitar o próprio corpo, perceber e escolher a cada momento o que faz bem pra si e pro mundo.
Paz pra nós :)